Talvez seja a tal magia do tempo que tudo cura. Olhou-se no cristal do espelho e viu que aquela seria uma nova vida. A dor havia se esfarelado, o amor perecido, como tudo aquilo que acaba devagar, sem que a gente perceba. Entendeu que a morte pode ser fecunda. Redescobriu as cores e a beleza. Redefiniu os contornos e relevos de seu novo mundo. Aguçou o paladar e o olfato adormecidos. Trouxe de volta a nitidez e o brilho. Acordou de um sonho ruim.
Ainda atônita com tanta leveza e doçura pôs-se a cantarolar melodias que acreditava esquecidas para sempre... Descobriu o genuíno prazer de sentir-se bem. Teceu flores no cabelo e vestiu o corpo com sândalos do Oriente. Fez tudo isso por si e para si.
Espiou dentro do peito e percebeu o coração passado a ferro. Nem sinal dos visgos amarrotados de longo tempo. Vasculhou seus recantos, espanou as teias, sacudiu o pó. Os fantasmas foram afugentados pela luminosidade que se instalara... Estava pronta para amanhecer.
Só mesmo o tempo é capaz de desmanchar mazelas, metamorfosear dores em quimeras, libertar.